É certo que a vida é cíclica , assim temos a certeza de que , aquele determinado instante que ficou logo ali atrás , passou , já foi , findou-se , a fim de dar espaço e trazer o novo , trazer o momento seguinte , os milésimos de segundo a frente , os minutos e as horas subsequentes.

Mas esse ciclo só tem razão de ser quando , ao observarmos suas margens , temos a oportunidade de reconhecer as mudanças , mesmo que mínimas , que possibilitaram a execução desses momentos de forma diversa das dos anteriores e mudanças essas que , infinitas vezes , podem ter começado de um modo bastante turbulento , podem ter nos levado a um tipo de caos interno , tão insuportável , de forma a parecer ser possível nos arrebentar internamente.

Esse caos , esse desenho atropelado da realidade interna , desconstruindo todos os alicerces , desestruturando todas as paredes , as vigas mestras , os acabamentos mais delicados , arrancando todo o assoalho e derrubando os telhados , estilhaçando as vidraças e arrombando todas as portas diz da nossa necessidade , mesmo inconsciente de ter de reinventar , ter de iniciar muitas (até mesmo todas) coisas do zero , construindo o novo em nosso interior.

Nos incomodamos com a quebradeira , com a demolição , com as perdas , com os cacos e os destroços , mas ao olharmos em volta , tudo aquilo que passou , damos de cara com o que ficou e com o desejo maior ainda de arrumar a bagunça , limpar tudo e recomeçar a construção novamente , nos reinventando de modo intenso , profundo e realmente mais vivo. Por tudo isso , até mesmo o caos é necessário em nossa vida para que nossas bases se reconstruam e nossos alicerces sejam reerguidos , após a mudança , mais fortes e vigorosos , estruturando de modo concreto nosso futuro novinho em folha que ali nos aguarda e fica feliz ao sentir o cheirinho da tinta fresca que podemos usar para colorir nosso novo destino...


